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Ribeirão Preto e cerveja: Em um relacionamento sério há 130 anos

09/11/2016

por: Daniel Navarro
Ribeirão Preto e cerveja: Em um relacionamento sério há 130 anos
Centro de Ribeirão Preto. foto: Rafael Almeida

Uma praça e um coreto. Como tantas outras cidades do interior, essa poderia ter sido a imagem típica da Ribeirão Preto de 1920. Afinal, nesta época a Praça XV já era o ponto de encontro da nossa elite urbana. Mas, graças à indústria cervejeira, param por aí comparações com uma bucólica cidade interiorana. Até 1938 havia no coração da praça não um coreto mas o Trianon da Antarctica, com um bar de dois andares onde a cerveja era estrela principal.

Essa foi uma das histórias que me impressionaram quando comecei a pesquisar para escrever esta reportagem sobre a relação econômica do setor cervejeiro com Ribeirão Preto. Por prazer e profissão ocupo boa parte do meu tempo com esses dois temas: cerveja e economia. Mas o que encontrei durante a apuração mostrou que sabia muito pouco sobre os 130 anos de relação entre a indústria cervejeira e a economia da nossa cidade, inclusive sobre esse ‘aniversário’ de 130 anos que comemoramos agora!

Um dos especialistas que procurei para ajudar a explicar essa relação econômica foi o doutor em economia e professor da USP, Alexandre Nicolella. Além de pesquisador em economia social, ele é companheiro de cerveja caseira. Como cientista, lembrou que para quantificar a importância econômica dessa indústria é preciso de dados, tanto históricos quanto atuais.

Para a pesquisa histórica, não faltam artigos, teses e dissertações mostrando que as bases do nosso desenvolvimento vieram do capital e da mão de obra relacionados a outra bebida: o café. Por outro lado, esses mesmo estudos mostram que a cerveja sempre esteve ali, dando sua contribuição, principalmente quando o crack da Bolsa de Nova Iorque exigiu que a economia da cidade se diversificasse. Em 1939, por exemplo, a Cervejaria Paulista foi a maior pagadora de impostos da cidade, superando o industrial e cafeicultor Antônio Diederichsen.Era o capital cervejeiro entrando nos cofres do município.

Já para entender a indústria atual, que cresce à reboque do mercado de cervejas artesanais,foi preciso buscar números junto às 10 cervejarias e brewpubs que operam atualmente na cidade. Essas empresas geram cerca de 240 empregos diretos, incluindo a equipe dos brewpubs. Isso é pouco menos do que a Antarctica empregava em 1920, quando tinha 279 funcionários. No seu auge, após incorporar a Cervejaria Paulista, a gigante cervejeira chegou a empregar 1200 operários. 

Mas as fábricas são apenas uma fração deste ecossistema cervejeiro regional que inclui também fábricas de chopeiras que fornecem para todo o país, a única indústria brasileira de barris de inox, em Sertãozinho, uma metalúrgica que se firma como fornecedora de equipamentos para a indústria cervejeira, em Batatais e um polo de produção com duas importantes indústrias de garrafas em Porto Ferreira. Isso sem falar na cadeia de comércio e serviços que inclui três grandes eventos que reúnem até 4 mil pessoas, tours cervejeiros, diversos empórios, um clube de assinatura de cervejas, duas lojas com insumos para homebrewers e cursos para produção, degustação e formação de mão-de- obra para o setor. Robusto, diversificado e com tantas vantagens competitivas (isso sem falar na famosa água cervejeira) o setor é fruto de condições únicas no Brasil. Mas isso também torna sua mensuração um desafio. Se dados consolidados do mercado brasileiro são raros, estima-se que as cervejas artesanais e premium possuam pouco mais de 1% de share. Mas como a economia é uma ciência social, não são apenas os números que ajudam a medir a importância econômica da cerveja para a cidade. Durante toda essa pesquisa, alguns fatos me chamaram a atenção. Vamos a eles:

1. Os precursores

A pesquisadora Luciana Suarez Lopes, da USP em São Paulo, cita que há 130 anos, em 1886,

havia três registros de cervejarias instaladas na cidade. Segundo Renato Leite Marcondes,

professor de história econômica da USP em Ribeirão Preto, em 1890 já eram 12 fábricas.

Apesar do grande número, a produção era artesanal e em pequena escala.

2. Primeiro prêmio

Os pioneiros certamente sofriam para obter ingredientes como malte, lúpulo e fermento.

Conseguir a refrigeração para a fermentação era outro desafio. Por isso, é bem provável que a

água do Aquífero Guarani tenha sido o trunfo da Cervejaria Livi & Bertoldi, para trazer o

primeiro reconhecimento da futura capital do chope. Em 1901, sua Cerveja Mulatta, de alta

fermentação, foi premiada na 1ª Exposição Regional Agrícola, Industrial e Artística do 3º.

Distrito Agronômico do Estado de São Paulo.

3. Primeira Grande

A água privilegiada, a riqueza do café e a localização capaz de atender mercados do interior de

São Paulo e estados vizinhos fizeram de Ribeirão uma opção natural para receber a primeira

filial da Cervejaria Antárctica, em 1911. Uma festa no mirante da fábrica marcou a inauguração

com direito a comes, bebes e discursos políticos.

crédito: Arquivo Jornal da Vila fotos cedidas por Fernando Braga

4. Briga Boa

O então vice-presidente da Câmara Municipal, Meira Junior, esteve na festa da Antárctica. Talvez naquele dia, entre um barril e outro, ele tenha pensado em fundar sua própria cervejaria. Certo mesmo é que em 1914, com capital de investidores locais e tendo Meira Júnior como presidente, a Cia. Cervejaria Paulista foi instalada na Jerônimo Av. Gonçalves, bem em frente à Antarctica. Nascia a maior rivalidade cervejeira da cidade e também a maior pagadoras de impostos de Ribeirão Preto.

crédito: Arquivo Jornal da Vila fotos cedidas por Fernando Braga

5. Cassino Antárctica

A Antárctica tinha a estratégia comercial de criar espaços para o consumo de suas cervejas. Enquanto na capital paulista foi criado o Parque Antárctica, a boêmia Ribeirão Preto, em 1914, via nascer o emblemático Cassino Antárctica. Com mais de 1200 lugares, era palco da Jazz Band Cassino Antarctica, onde tocava o alemão Max Barstch, gerente da cervejaria e fundadorda Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto.

crédito: Arquivo Jornal da Vila fotos cedidas por Fernando Braga

6. Um quarteirão

Mesmo com a crise do café se anunciando em 1927, a Cia. Paulista também injetou muito dinheiro na construção do Teatro Pedro II, no edifício comercial Meira Junior e no atual Hotel Palace. O Quarteirão Paulista foi um passo importante para tornar a cidade referência no setor de serviços.

7. Junto e misturado

Em 1973, sem capital para se modernizar, a Paulista foi comprada pela Antárctica dando origem à Cervejaria Antarctica Niger. Em 2000, para ter aprovada a fusão Brahma com a Antárctica, a AmBev vendeu a fábrica de Ribeirão Preto para a canadense Molson que encerrou suas operações em 2003. No seu auge, na década de 1980, a Antárctica empregava 1200 operários e suas cozinhas mandavam para os tanques de fermentação 460 hectolitros de mosto a cada hora e meia. A indústria tinha 16 tanques de inox para fermentação e maturação da cerveja com 400.000 litros cada um.

crédito: Arquivo Jornal da Vila fotos cedidas por Fernando Braga

8. Fama mundial

O Pinguim foi inaugurado em 1936, mas foi a partir de 1965, sob a administração de Albano Celini - o Seo Albano -, que se tornou conhecido internacionalmente, sempre tendo a Antarctica como parceria. A lendária serpentina que ligava a fábrica da Antárctica ao Pinguim, infelizmente não existiu. A leveza e cremosidade que vivem no imaginário de ribeirãopretanos e turistas é fruto do cuidado especial com a bebida, da conservação da bebida ao copo do cliente. Tanto é que mesmo sem produção local, a casa recebe por ano cerca de 1 milhão de clientes em suas duas unidades em Ribeirão Preto e chega a vender 3 milhões de tulipas de chope.

Pinguim ao entardecer. Foto: Rafael Almeida

9. A refundação

Com o projeto de um brewpub debaixo do braço, o carioca Marcelo Carneiro refundou, em 1996, a economia cervejeira da cidade. Seu bar-cervejaria, de tão visionário para a época, não prosperou. Mas ele encontrou o sucesso da Colorado utilizando ingredientes brasileiros em suas cervejas. Também deu certo seu Cervejarium, bar que Marcelo mantém na cidade com uma carta de cervejas brasileiras. Na receita de negócio bem sucedida, a cidade entrou com a água do Aquífero Guarani, o alto potencial econômico e a identidade cervejeira. Marcelo com investimento, persistência e criatividade.

Fachada da antiga fábrica da Colorado. Foto Divulgação

10. Dez fábricas

Até o final de 2016, o saldo da refundação da indústria cervejeira foi de dez fábricas. O lema “beba local” faz cada vez mais sentido. Só não perca a conta: Colorado (1996), Lund (2009), Invicta (2011), Klaro (2012), Weird Barrel e Walfanger (2015), Pratinha, SP 330, Nacional e Jops (2016).

Representantes do POLO Cervejeiro foto: Roberto Galhardo, cedida pela revista Zumm

11. Números

A cidade possui hoje uma capacidade instalada de 1 milhão de litros por mês e produz 81 rótulos diferentes. São cerca de 240 empregos diretos e mil indiretos ligados às indústrias locais de cerveja. Porém, mais de 70% da produção local já não é independente. Está ancorada na nova planta da Colorado, que já funciona plenamente.

12. Modelos de negócios

Num setor com tamanho crescimento, o mercado tem mostrado capacidade de absorver tamanha oferta. Essas dez empresas têm encontrado seu nicho e seu modelo de negócio: brewpub, mercado local de chope, distribuição nacional, produção para marcas diversas, nanocervejaria com perfil de startup e até para abastecer os próprios restaurantes, como fez o Grupo Jops.

Cervejaria Pratinha. Foto: Rafael Almeida

13. 60% pro governo

Assim como gostaria de dizer que a serpentina do Pinguim não era uma lenda, seria ótimo não precisar falar sobre o principal entrave do setor: impostos. Mas, como sugerem os especialistas em degustação, deixamos o amargo para o final. Segundo Carolina Silva Campos, da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da USP, que estuda a simplificação tributária das cervejas artesanais em sua pesquisa de mestrado, são quatro os impostos que incidem sobre o produto: IPI, PIS, Cofins e ICMS. Para uma garrafa de meio litro eles podem acrescentar 85,6% no valor final da bebida. Ou seja, se a bebida custaria R$ 10, os impostos fazem com que ela custe R$ 18,56. Triste. E a conta não é simples, ela leva em consideração desde o tipo e o volume da embalagem até a produção da indústria no ano-calendário anterior e o percentual de malte na receita. Importante dizer que a cidade onde as cervejas são produzidas fica com absolutamente nada do montante geral arrecadado com impostos. Eles são de competência federal ou estadual.

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