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Conexão com o café

04/12/2018

por: Rafael Tonon
Conexão com o café
Foto: Fran Micheli

A história de Ribeirão Preto com o café não se resume às poucas fábricas que se mantiveram na cidade ou ao Museu do Café no campus da USP cujo acervo – embora abandonado – ainda mantém esculturas, carros de boi, maquinários e registros do período áureo do café na região. Porque houve mesmo um tempo em que café era sinônimo do progresso da cidade e seu entorno, a maior força de seu potencial agrícola.

Concorrência e vanguarda

Nem sempre foi assim, porém. Até o ano de 1874, o Vale do Paraíba era o maior produtor de café de São Paulo. Mas, um dos problemas enfrentados pela região era a falta de área para a expansão do cultivo, com áreas em declive acentuado. Além disso, a fertilidade dos solos nessas áreas não era boa e com o avanço dos plantios as terras começaram a sofrer o processo de erosão, o que comprometeu o desenvolvimento da cultura.

Com o desenvolvimento do transporte ferroviário, juntamente com a vinda de estrangeiros (principalmente italianos e japoneses) e de mineiros, o café começou a expandir-se para outras áreas da província de São Paulo, dentre elas Ribeirão Preto. “Ribeirão possuía também um solo altamente fértil (terra roxa, decorrente da decomposição de rochas vulcânicas) o que favoreceu o cultivo do café”, afirma Júlio César Mistro, pesquisador do Instituto Agronômico (IAC), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

Foto: Fazenda Ambiental Fortaleza / divulgação

Algumas famílias, como a Junqueira e a Pereira Barreto, foram pioneiras na exploração da cafeicultura na região – a segunda introduziu em 1876 o plantio da cultivar Bourbon, uma das mais importantes em termos de qualidade de bebida no mundo. No início da década de 1920, Ribeirão Preto foi o maior produtor de café do estado de São Paulo. “Para se ter uma ideia, o café foi responsável por 90% da arrecadação monetária da região enquanto que a cana, arroz, feijão e milho correspondiam juntos aos outros 10%. Cerca de 96% das propriedades agrícolas cultivavam café”, explica Mistro. 

Mas foi uma geada em 1918 que deu início ao declínio da produção na região: depois dela, os cafezais nunca mais atingiram as altas produções anteriores. A partir de então, o café começou a migrar para outras regiões do Estado, principalmente oeste e sul. “Somando-se a isso ocorreu a Crise de 1929, o que incentivou os cafeicultores a irem para o algodão e a cana-de-açúcar, além das atividades industriais e comerciais durante toda a década de 30”, detalha o pesquisador. 

Mas a verdade é que a grande região da Alta Mogiana, da qual fazem parte cidades como Franca, Altinópolis, Pedregulho e a própria Ribeirão Preto continua sendo uma das mais importantes produtoras de café do Brasil, já que possui um dos melhores cafés para se beber, com alta qualidade sensorial. “Isso ocorre devido essas cidades estarem localizadas em altas altitudes, o que propicia uma bebida de melhor qualidade. A região em torno da cidade possui produtores de café que são modelos para o Brasil e até para outros países do mundo”, explica Mistro.

Um deles é Felipe Croce, da Fazenda Ambiental Fortaleza (FAF), em Mococa, a cerca de 100 km de Ribeirão. A fazenda pertence à família de Felipe desde 1850, quando o mercado de commodities ainda dominava a produção de café no país. Por ser o maior produtor do mundo, o Brasil nem sempre foi reconhecido pela qualidade, o que permitiu estigmatizar a imagem da produção do país no mercado internacional.

Felipe Croce e os pais na Fazenda Ambiental Fortaleza, em Mococa

“Nós percebemos que o mercado queria café de qualidade, então começamos a trabalhar em processos. Como meu pai já estava trabalhando com o comércio exterior nos EUA, começamos a exportar nossos cafés diretamente. Mas a demanda começou a aumentar, então precisamos começar a desenvolver o parceiro produtor para atendê-la”, explica ele, que hoje exporta seus cafés para torrefações do mundo inteiro além de ter tido seu café em restaurantes renomados como o Noma, em Copenhagen, e Alinea, em Chicago.

Hoje a FAF conta com uma rede de produtores de pequeno e médio porte para criar seus cafés. Foi preciso, segundo Croce, desenvolver parceiros na região que pudessem oferecer cafés com a mesma qualidade que eles produziam. Algo, aliás, que tem transformado o mercado da região à medida que foi preciso convencer e ajudar pequenos produtores e até sitiantes a dar mais atenção para o cultivo dos grãos que tinham, melhorando a qualidade. Hoje, ele diz, a região já passou também a seguir essa demanda. 

“As cafeterias que estão surgindo conseguem ensinar o público a tomar café melhor e pagar mais por isso, o que cria a oportunidade de pagar mais também ao produtor”, afirma. “É um ciclo que se presta a mostrar o produtor de café como um artesão. Isso valoriza a vida no campo e impacta no desenvolvimento dos produtores”, acrescenta.

O boom das cafeterias

Uma das cafeterias pioneiras em Ribeirão Preto a trabalhar com grãos selecionados de pequenos produtores foi a Grassy Spazio Café, que abriu as portas no final de 2014. “A gente já trabalhava venda e assistência técnica de máquinas de espresso e queria trazer mais pessoas que gostassem de café para conhecer nosso trabalho. Na época, não existiam cafeterias focadas em cafés especiais em Ribeirão, e achamos que poderia ser uma boa oportunidade”, diz Raphael Ferraz, um dos proprietários, ao lado do irmão Leonardo. 

Para conceber a Grassy, eles resgataram a história de cafeicultura da cidade. Investiram em um torrador para fazer a própria torra de grãos da Alta Mogiana e outras regiões de produção do país. “Ribeirão sempre foi uma cidade ligada ao café e carrega essa tradição mesmo que não tenha mais pés plantados por aqui. A gente procurou resgatar essa conexão que está no cotidiano do ribeirão-pretano, já que muitas famílias foram ligadas à sua produção”, diz o barista. “Muita gente que vem à cafeteria tem a lembrança da avó que colhia e torrava em casa o café”.

Para ele, o café especial passou a ganhar força no Brasil e Ribeirão não ficou atrás. “Quando as pessoas passam a reconhecer a diferença de um café de qualidade superior daquele industrializado, começa um movimento sem volta”, diz Ferraz. “A cena local está crescendo bastante, o cliente entende cada vez mais o conceito de cafés especiais, tem mais rigor sobre o que toma, e busca tomar cafés melhores”, ele acredita.

Mariana Martins e Zitto Rocha, do Marê Café 

Foi para aumentar a oferta da cidade que o casal Mariana Martins e Hélio Rocha – ela jornalista e fotógrafa e ele professor de química tornado barista – decidiu abrir o Marê Café em fevereiro, no Jardim Sumaré. “Era apenas um hobby, passear por cafeterias e estudar sobre a bebida… até que resolvemos fazer um tour por cafeterias em São Paulo e percebemos que Ribeirão ainda era carente de mais cafeterias especializadas e tinha muito potencial por ser uma região que algum dia já sentiu muito o cheirinho do café”, conta Mariana.

Ela conta que, além dos inúmeros métodos de extração e diferentes grãos que oferecem, eles têm o cuidado de ir em cada mesa explicar e orientar o cliente sobre os cafés servidos ali. “Sentimos que, como nós, existem muitos clientes curiosos e apaixonados por esse maravilhoso grãozinho e sedentos por informações e trocas sobre ele”, diz ela. “O que poucos sabem é que a nossa região (Alta Mogiana) é maravilhosamente rica de plantio e cultura de cafés especiais e grandes exportadores”, afirma.

Há sempre grãos da região servidos no Café Despertar, outro representante da “nova geração” de cafeterias. O blend exclusivo da casa é o Sabiá Laranjeira, feito com Bourbon Amarelo, Catuaí Vermelho, Mundo Novo entre outros varietais, servido em 5 métodos além do espresso, como coados, prensa francesa e até o sifão. O objetivo é democratizar o café especial.

“Nosso intuito é mostrar que a qualidade está mais acessível. Ribeirão está passando com o café a mesma coisa que passamos com a cerveja artesanal. O público da cidade tem ficado mais exigente no paladar”, afirma o empresário e fotógrafo Murilo Moraes, um dos sócios da casa. “Há pessoas até que começam a tomar mais café”, garante. 

E vemos aí um bom sinal de que, para resgatar toda uma história, uma xícara de café feito na hora pode ser o começo de uma boa lembrança.

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