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“Preconceito? Que nada, eu confio no meu taco”

13/11/2017

por: Fran Micheli
“Preconceito? Que nada, eu confio no meu taco”
Fotos: Fran Micheli

Ela chega afobada para a entrevista. Atrasou porque tinha uma encomenda grande de última hora. Depois de me cumprimentar, deu um oi geral e mandou beijo pras meninas do balcão da loja da Presidente Vargas, seu último empreendimento.

“Menina, não é fácil não”, desabou na cadeira a mãe de três moços que trabalham com ela e o marido na administração da Salgadinhos Salete. Hoje, com sete lojas espalhadas por Ribeirão Preto, incluindo o único drive thru de salgadinhos da região e uma fábrica de 600m², a empresária Salete Ávila de Souza Bolsoni se tornou um furacão empreendedor com orgulho das origens humildes.

Em 1994, ano de nascimento do Plano Real, Salete vinha de Ipuã para fazer a vida aqui. “Ribeirão é a minha Miami”, diz, soltando uma risada gostosa.

Chega um prato com salgadinhos variados e quentinhos. Coxinha, bolinha de queijo, pastel de carne. Experimento todos enquanto ela se levanta para perguntar a um casal de clientes se estava boa a esfirra. E aproveita para entregar uns folders e avisar que também tem salgadinhos pra festa. “Se me deixarem aqui faço propaganda o dia inteiro”. E como vende bem, essa mulher.

Com tamanha simpatia, pergunto se um dia já teve vontade de entrar para a política. “Até daria, mas prefiro continuar do jeito que estou. Não daria conta de agradar todo mundo, né”.

Trailer dos Salgadinhos Salete, na década de 1990, no Centro de Ribeirão. Foto: acervo

Salgado por 50 centavos

Filha de merendeira de escola pública, Salete aprendeu cedo os macetes da cozinha e, sempre que podia, ajudava a mãe com as panelas enormes. Aos 18 anos, se casou com o atual marido que até então era dono de lanchonete, onde também costumava dar uma mãozinha. A comida estava por todo canto da sua vida.

Depois, com três filhos pequenos, Bruno, Leandro e Plínio, Salete viu que Ipuã era pequena demais. Veio tentar a vida em Ribeirão Preto e daqui não saiu mais.

No início, alugou um trailer na rua General Osório, ao lado do antigo terminal de ônibus. “Eu fazia os salgados no meu apartamento, no Parque Bandeirantes e meus filhos, molequinhos de tudo, levavam as caixas de ônibus até o centro”.

Os salgados custavam 50 centavos e a fila dobrava o quarteirão. Foi preciso abrir uma bilheteria, com sistema de fichas. Se não usassem, poderiam usar em outro dia. Isso foi inovador naquela época, naquele lugar.

Salete, de branco, com o marido, no trailer. Foto: acervo

Aceita-se passe de ônibus

A maioria dos clientes era formada por empregadas domésticas, trabalhadores do centro, estudantes das escolas públicas. Salete conta que muitas pessoas chegavam ali no fim do dia sem dinheiro e com fome porque o patrão não tinha pago. “Comecei a aceitar passes de ônibus e até dava salgadinho de graça. Meu marido brigava comigo, mas a minha maior alegria era deixar o dia daquelas pessoas um pouquinho melhor”.

A então dona do trailer alugado por Salete, vendo o sucesso que tinha se tornado o negócio, o pediu de volta. Uma pontinha de inveja, talvez. Destemida, a empresária entregou o trailer, mas não sem antes providenciar o seu próprio, feito do dia para a noite por um serralheiro amigo. “Pois no outro dia, estava lá novamente com outro trailer, vendendo pra caramba”.

Sempre com um sorriso no rosto, Salete foi conquistando o pessoal do centrão. Não tinha um que passasse sem comer uma esfirra de frango, o grande hit do momento. O movimento cresceu tanto que não teve outro jeito: encontraram o ponto perfeito que estava para alugar ali pertinho e foi fundada a primeira loja do Salgadinhos Salete.

A loja se tornou ponto de encontro. Entre uma coxinha e um pastel, um indicava emprego para o outro, fofocavam, comentavam sobre a tal reforma da praça XV de Novembro. E a fila de clientes só crescia.

Salete na primeira loja, na Barão do Amazonas.

Drive Thru na Zona Sul

O lado bem humorado e carismático de Salete pode até ter sido um grande facilitador para o crescimento da empresa, mas foi o tino para negócios e a parceria com o marido que fez tudo se manter bem nos últimos 20 anos.

Depois de gerenciar seis lojas e de implementar a fábrica própria no centro da cidade, Salete inovou criando o primeiro drive thru de salgadinhos. Na entrada, o cardápio completo. Você chega de carro, escolhe, paga e leva. Uma ótima sacada para a avenida Presidente Vargas, que quase não tem lugar pra estacionar. A Zona Sul, segundo ela, fez uma boa recepção. “Preconceito? Que nada, eu confio no meu taco, na qualidade do que eu entrego aqui”.

Atualmente, o salgado custa R$3, ou 3 por R$8. A qualidade é uma preocupação constante. “Muita gente já me criticou e falou bobagem. ‘Como dá pra ter lucro com um salgado tão barato?’. O segredo para fidelizar a clientela é ter ótima qualidade e preço baixo. O que vem pra loja da Presidente é o mesmo que vai pra loja da General. Ganhamos com a quantidade”.

Sobre vendas e faturamento, Salete não quer conversar muito. Diz que isso é coisa do filho Leandro. Sua parte é treinar os funcionários, estar presente, acompanhar os processos.

Salete na produção dos pasteizinhos de festa. Temperos vêm da horta da família.

Há alguns anos, Salete esteve em uma feira alimentícia em Milão acompanhando as novidades e trouxe da Alemanha fornos modernos que cozinham a vapor e não esquentam o ambiente. “Mais qualidade de trabalho para os funcionários, né? Todo mundo aqui trabalha feliz”.

Fiz a pergunta clichê sobre ser uma empresária de sucesso. Qual a receita? “Eu acordo agradecendo, tenho muita fé. Temos só um corpo, pra que ficar gastando com trocentas roupas? A gente tem que ter foco naquilo que importa, se você se deslumbra com o dinheiro você se perde”.

Hoje, ela ainda mora no Parque Bandeirantes. Mas se mudou para o edifício que mandou construir para manter os filhos unidos. Cada um em um apartamento. Gosta de observar a natureza na horta que mantém com a família. É de lá que vêm o cheiro verde e as pimentas usadas no tempero dos recheios dos salgadinhos. “Às vezes fico olhando o céu, a natureza e sinto cair lágrimas. Vejo que nada é nosso na verdade, é tudo emprestado”. 

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