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Um abraço em forma de comida

09/11/2016

por: Fran Micheli
Um abraço em forma de comida
Dona Áurea. Foto Rafael Almeida

Nos natais na minha família, não eram os presentes nem o Papai Noel que eu esperava ansiosa. Eu queria era saber da torta de frango da Tia Dária. Sempre saía uma briga amistosa pelo último pedaço, sendo que na corrida frenética dos tupperwares pós-festa, a torta era a única que não ia pra casa de ninguém.

A massa simples com recheio generoso tinha um gosto diferente. Tentei, por muitos anos, adivinhar se era a azeitona, ou o palmito, ou algum ingrediente secreto. Mas hoje vejo que era a festa toda que dava o toque especial na receita. A torta permaneceu na minha memória com o gosto dos primos reunidos, de tias queridas que já se foram e de uma época cujas preocupações pairavam sobre os próximos capítulos da novela das nove. Não só a massa da torta da Tia Dária era leve e saborosa. A vida, quando se tem 14 anos, também costuma ser.

Corta pra hoje. Ganhei a incumbência de falar sobre cozinha afetiva e como as nossas memórias culinárias nos moldam psicologicamente ao longo da vida. Se olharmos mais a fundo, perceberemos que aquela macarronada da mãe, a costela do tio Carlos e a sopa daquela amiga querida não estão nos nossos rankings mentais de comidas preferidas por acaso. Essas receitas podem não ser tão elaboradas ou sequer feitas por alguém que realmente entenda de cozinha, mas se o prato em questão for provado pela primeira vez sob uma atmosfera acolhedora, pronto, ele já vai ganhar mil estrelinhas no nosso guia particular. E vamos espalhar aos quatro cantos o quanto aquela comida é especial, assim como quem a preparou.

Amor e raiva como ingredientes

Você já parou pra pensar sobre quanto a comida está presente nas suas memórias mais gostosas? Sobre quantas vezes você já tentou amenizar a tristeza com um doce calórico ou comemorou algo reunindo amigos em uma mesa farta? Muito além de nutrir o corpo, comer é um ato social de impacto psicológico, capaz de sustentar relações e mandar mensagens subliminares. Esse princípio foi, inclusive, muito explorado pelo premiado chef catalão Ferran Adriá na gestão do El Bulli – considerado várias vezes como o melhor restaurante do mundo e que fechou as portas em 2011.

Com 75 membros na equipe, a cozinha era uma mistura de sotaques e sabores do mundo inteiro. Para amenizar a saudade de casa dos funcionários, diariamente uma refeição completa com entrada, prato principal e sobremesa de cada país era preparada e servida aos membros do time. O livro “A Refeição em Família” – escrito por Ferran Adriá juntamente com o chef responsáveis por esta iniciativa, Eugeni de Diego - reúne 93 receitas servidas nas tais refeições, com ingredientes típicos e acessíveis. Esta foi a maneira encontrada para oferecer um momento de conforto e afetividade a pessoas que estão longe de seus portos seguros.

O psicoterapeuta Diego Gutierrez Rodrigues me contou que certa vez atendeu uma mulher que estava com raiva do marido porque ele não havia cumprido um acordo feito entre eles. Um dia, ela percebeu que sua comida estava insossa e, voltando a conversar com o marido, ele lhe disse que isso já estava acontecendo há um bom tempo. “Chegamos à conclusão de que não colocar sal na comida era a forma dela dizer ao marido o quanto estava magoada. Ela não percebia que estava fazendo isso, mas após ter conversado sobre sua questão mal resolvida com ele, deixou de se ‘esquecer’ de por o sal na comida”.

O tal Cozido da Dona Áurea

Fiquei sabendo pelo boca-a-boca de um tal cozido que a mãe de uma amiga costuma fazer. A aposentada Áurea Lorençato Duque, 68, resgatou um prato que havia ganhado fama nas mãos da sua sogra baiana, já falecida. Ela diz que se lembra do carinho com que o cozido era feito, porém, na sua adaptação, alguns ingredientes regionais tiveram de ser substituídos. Há 25 anos o cozido serve como uma ótima desculpa para reunir a família em casa.

Dona Áurea explica que todas as memórias que tem da sua sogra vêm junto com o sabor do cozido, feito com carne, legumes e um pirão, tudo feito muito lentamente e com muito coentro. “Vovó Carminha (como os filhos a chamavam) nunca trabalhou e se dedicava muito à cozinha. Até os 88 anos, ela ensinou as receitas às cozinheiras. Quis trazer pra minha casa esse respeito que ela tinha com o ato de fazer comida”.

E a estratégia funcionou. “Quando meus filhos eram adolescentes, eles nunca tiveram aquela coisa de ficar fora de casa ou de preferir os amigos à família. Eu começava a fazer o cozido e eles se debruçavam no balcão e me ajudavam. A comida é sempre uma boa desculpa pra gente ficar junto de quem ama, não é?”.

Dona Áurea também suspira ao se lembrar da infância vivida na roça e da avó italiana que fazia uma polenta maravilhosa. “Em vez de faca, ela usava um barbante para cortar a polenta na tábua. Comíamos pão feito em casa, matávamos o porco e guardávamos na própria banha porque não tinha geladeira, colhíamos legumes da nossa terra. Não tínhamos dinheiro e aprendemos a valorizar o alimento feito por nós mesmos”.   

Engraçado pensar que o que era feito por necessidade há décadas, hoje é visto como tendência. A comida natural e feita artesanalmente ganhou status de cool. Seria uma necessidade de criar novas memórias afetivas depois de tanto tempo da dominação do alimento industrializado?

Pão, vinho e dois corações partidos

As amigas Fabiana Soares e Thais Verônica passaram a dividir o mesmo teto logo depois das  separações complicadas e dolorosas com os respectivos maridos. Motivos financeiros e corações machucados uniram as duas, que amenizavam as dores da alma com uma noite por semana dedicada às conversas sobre a vida sempre com um mesmo menu: pão gratinado com creme de gorgonzola e vinho tinto.

Fabi e Thais. Foto Rafael Almeida

O significado que a dupla pão + vinho passou a ter na vida da Fabi e da Thais é muito parecido com o relato da escritora chilena Isabel Allende, em seu livro Afrodite, sobre sua relação com o arroz doce. “É meu doce preferido e por isso, em 1991, em um restaurante de Madri, pedi quatro pratos de arroz-doce e, para complementar, um quinto de sobremesa. Comi todos eles sem piscar, com a vaga esperança de que aquele nostálgico prato da minha infância me ajudaria a suportar a angústia de ver minha filha muito doente. Nem minha alma, nem minha filha se aliviaram, mas o arroz-doce ficou associado na minha memória a consolo espiritual”.

Durante quase um ano, o programa semanal das duas amigas passou a curar as feridas afetivas. “A comida é acolhedora. Era como se eu tivesse a minha família sentando pra jantar. Hoje estamos mais leves e superamos a dor da separação, mas continuamos com o ritual semanalmente e chamamos amigos para comer e beber com a gente”, conta Thaís.

A receita é simples e, ironicamente, veio de herança do ex-marido de Thaís, que era chef de cozinha. São fatias de pão francês acomodadas em um refratário, regadas com creme de queijo gorgonzola, alho-poró e alho refogados no azeite e finalizados com creme de leite.

“Quando cada uma de nós for seguir o seu caminho, o que vai ficar no meu coração são essas noites com pão e vinho”, conta a Fabi, emocionada.  

O psicoterapeuta Diego Gutierrez acrescenta que o ato de partilhar a comida com pessoas queridas pode ter suas bases na pré-história, quando grupos tinham muito mais chances de sobrevivência e sucesso em suas caçadas do que indivíduos isolados. Se caçamos juntos, nada mais coerente que comermos juntos e conversarmos sobre a caçada ou sobre o grupo rival. “A mesa tem uma certa mágica porque nos coloca diante do outro e, em certa medida, estar diante do outro é estar diante de nós mesmos. Se temos alguma questão mal resolvida nessa hora, somos incomodados. É mais fácil sair da mesa, mas ficar pode mudar tudo”.

Pouco dias depois do meu encontro com a Thais e a Fabi e na correria para fechar esta primeira edição da Farofa, vi por acaso uma Bíblia aberta numa loja de eletrônicos. E no finalzinho da página de Cantares de Salomão, li uma passagem breve: “Sustentai-me com passas, confortai-me com maçãs; porque estou enferma de amor”.  

Enquanto escrevia essa matéria, a vida andou em uma sincronia muito saborosa. E me lembrei novamente da torta de frango da Tia Dária e na feliz possibilidade de ainda poder brigar com a família toda pelo último pedaço na assadeira amassada de alumínio. 

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