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Sobre Madalenas

Por: Lili Ribeiro

10/08/2017
Sobre Madalenas

A tarde era chuvosa, cinza e um friozinho batia na janela. Todo cenário me levava aquela vontade de um bolinho com chá, acolhidos com meias quentinhas, juntos com um se jogar no sofá sem olhar o tempo nos ponteiros do relógio. Pego farinha, ovos, manteiga e as formas guardadas na despensa para fazer meus bolinhos preferidos em dias que pedem preguiça. Madalenas. AS receitaS anotadas a mão no caderno de folhas amareladas, resistem ao tempo ainda preservadas no caderno com espiral.

Ligo o forno.

Derramo a massa nas forminhas delicadas, com um formato que lembra conchas do mar. Fico de olho no tempo certo para assarem perfeitas. O aroma invade a cozinha anunciando o deleite que está por vir. Começo a salivar só de imaginar a fofura, a mordida embebida com o chá em minha boca. A xícara para servir o chá sai do armário como se fosse para um baile de gala, receber tão ilustre convidada.

Ritual feito.

Há Madalenas...Nos convidam a entrar num salão e bailar numa valsa de Vivaldi. Fazem cócegas no estômago, sorriso nos lábios e abraçam o corpo de felicidade em cada pedacinho da mordida. Me vem à lembrança o trecho do romance “Em Busca do tempo Perdido” de Marcel Proust, onde o autor relata em detalhes a experiência ao provar Madalenas com chá, ao atribuir ao paladar e ao olfato a função de convocar o passado.

Foto: Lili Ribeiro, em seu chá com "madeleines", clássica receita francesa

Aqui um trecho do texto:

“ Muitos anos fazia que o drama do meu deitar não mais existia para mim, quando, por um dia de inverno, ao voltar para casa, vendo minha mãe que eu tinha frio, ofereceu-me chá, coisa que era contra os meus hábitos. A princípio recusei, mas, não sei porquê, terminei aceitando.

Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios, chamados Madalenas e que parecem moldados com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de Madalena.

Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou o meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim.

Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção da sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferente às vicissitudes da vida...

De onde me teria vindo aquela poderosa alegria?

Senti que estava ligado ao gosto do chá e do bolo, mas que ultrapassava infinitamente e não devia ser da mesma natureza.

Bebo um segundo gole em que não encontro nada demais que o primeiro, um terceiro que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo de parar, parece que está diminuindo a virtude da bebida.

Deponho a taça e volto-me para o meu espírito. É a ele que compete achar a verdade. Mas como? Grave incerteza todas as vezes em que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo, quando ele, o explorador é ao mesmo tempo o país obscuro a explorar e onde todo o seu equipamento de nada lhe servirá. Explorar? Não apenas explorar: Criar. Está em face de qualquer coisa que ainda não existe e a que só ele pode dar realidade e fazer entrar na sua luz.”

Marcel Proust.

Livro: No Caminho de Swann – Capítulo I

Publicado entre os anos de 1913 e 1927.

Coletânea: Em Busca do Tempo Perdido.



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