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Quanto Pesa

Por: Lili Ribeiro

13/10/2017

Retiro as malas do maleiro. Uma grande, uma média e uma pequena de bordo.   Toda viagem pede aquela logística na hora de encaixarmos tudo dentro daquele quadrado com rodinhas. A logística entre o peso permitido pela companhia aérea e tudo que separamos nem sempre é tarefa fácil. Nós mulheres somos um caso à parte e, se pudéssemos, levaríamos a casa dentro da mala. Aquele travesseiro, aquele rímel, a toalha, todos os acessórios de cabelo, colares, chinelos, sapatos, perfume, hidratantes, maquiagem e as roupas...aaah se pudéssemos levaríamos o armário dentro dela. Sem falar nos remédios que, nessa hora, ficamos “por precaução” pensando em todo tipo de medicamento para cada doença que possa surgir durante a viagem. Quem nunca?

Embora me considere prática e rápida na hora de fazer uma mala, digamos que “sem muitos apegos”, desta vez, reflito um pouco mais no que realmente preciso levar. Por que não viajar somente com uma bagagem de mão? Me animo com a lista de vantagens. Check-in rápido, não ter a mala extraviada, não ter que esperar a chegada delas na esteira depois de uma noite mal dormida, fora a possibilidade de ter que pagar pelo excesso de peso, praticidade, facilidade de locomoção, entre tantas outras.

Poderíamos chamar de check-in da libertação. Viajar vai além de conhecer lugares, pessoas, novos sabores gastronômicos. Seria como comprar um bilhete de viagem pra dentro de nós mesmos. Um check-in ou check-up interno do significado mais profundo desse apego em carregar coisas materiais com as quais julgamos não conseguir sobreviver sem elas.

Nos entregarmos a um novo roteiro de viagem, com uma visão mais profunda do nosso território interior.  O mapa emocional, aprendizados das nossas vivências, crenças e experiências de vida, aquelas que carregamos no coração, na alma. Nossas frustrações, alegrias e tristezas, memórias, expectativas, saudades, esperanças, trabalho, relações, família, amigos etc.

Descobrir que, para chegarmos naquele lugar que queremos dentro e fora de nós, existem outros caminhos bem menos esburacados, com paisagens menos áridas.

 Perceber que nem sempre poderemos escolher o que irá acontecer durante o caminho, mas poderemos escolher sempre ressignificar o que aconteceu no percurso. E o que levaremos na bagagem influenciará no destino final da nossa jornada. Desapegarmos, inclusive, do que não mais nos pertence, dos pesos passados e presentes.

O que levaremos e deixaremos antes do embarque? E na mala interna o que levaremos? Penso na dificuldade que temos em desapegar do que não nos pertence mais, ou não deveria. Daquilo que está lá martelando nossa cachola e enfraquecendo nosso viver no “aqui e agora” e dar ao presente, um presentaço!

Se dentro de nós carregarmos o peso da alma de um turista perdido no mundo de si mesmo, que está na constante busca somente da conquista do lá fora, no efêmero e no superficial, já não importará a viagem que escolheremos fazer, o continente que queremos ir, o oceano que iremos atravessar, o perfume dos campos de lavanda que iremos sentir. Focar atenção somente nessa sombra escura nos impossibilita muitas vezes de voar como pássaros, sobrevoar novos caminhos, pousar e construir um ninho com laços. Construir e manter boas memórias. Serão elas que nos acompanharão até o final. Eis o desafio.

Viajar na vida sem os pesos internos dos “tics-tacs” dos ponteiros do relógio lembrando os segundos dos abraços que não demos e não recebemos, da atenção que ficou perdida no corre-corre do dia-a-dia, de querer dar conta de tudo, do tempo sem os filhos, do tempo para ter um filho, do último beijo que não aconteceu, do telefonema que não veio ou não fez, do esquecimento do aniversário da amiga, do namoro que não engrenou, da separação que trouxe dor e abandono, das culpas, dos medos, do amor que não estava pronto para nós, do que foi, do que não foi, do que poderia ter sido, do medo antecipado de não dar certo, e se não der, e se falar, e se não falar, e se cobrar, e se...e se..

Dalai Lama ilustra o apego ao sentimento de “meu” num vaso: você contempla um magnífico vaso de porcelana numa vitrine. Um vendedor desastrado o derruba. Você lamenta: “Que pena, era um vaso tão lindo!, e continua tranquilamente no seu caminho. Agora, imagine que alguém lhe deu esse vaso, você o colocou orgulhosamente sobre a lareira e ele cai, quebrando-se em mil pedaços. Horrorizado, você exclama: “Meu vaso quebrou”! e ficará profundamente afetado. No entanto, a única diferença é o rótulo de “meu” que você atribuiu ao vaso.

Check-in feito. Portão de embarque, poltrona 11d, máquina fotográfica e uma bagagem de mão. Ao meu lado, uma senhorinha fofa, de cabelos brancos como algodão, um livro apoiado sobre as pernas e um sorriso me convida ao abraço. Pergunto para onde ela está indo. “Encontrar meu amor”, responde ela. Nos olhos dela, vejo marcas de pegadas leves de pés saltitantes. Check de portas. Boa viagem!



Lili Ribeiro
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