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Os “causos” do meu estômago

Por: Cris Beltrão

10/06/2017

No Mercado dos Lavradores da Ilha da Madeira, escutei: “é brasileira, a menina, é?”. Aquiesci, enquanto tentava comprar uma garrafa de poncha, aguardente de cana local, feita com açúcar e suco de limão. E completaram: “a aguardente de vocês não se compara à nossa.” Doeu. Era empáfia sem qualquer constrangimento. Antes de julgar a falta de hospitalidade, me lembrei que a descoberta do Brasil levou a uma terrível crise econômica na Madeira, principal fornecedor de açúcar para o continente europeu até então. Os avós daquela senhora provavelmente perderam tudo graças à adaptação da cana ao país do “em se plantando tudo dá” aliada à nossa mão-de-obra escrava que derrubava os preços. A garrafa de poncha em minhas mãos estava cheia, sim... mas de rancor.

Na Sardenha, parei numa birosca na beira da praia onde comi uma massa no ponto perfeito. Improvável, pensei. Dois dias depois, em outro pé-sujo, outra massa densa emprestava resistência a cada dentada. A cena se repetiu por vários dias, curiosamente, também na forma de pães riquíssimos. Não se tratava de feliz coincidência: a Sardenha foi um dos maiores fornecedores de grãos da República Romana até a anexação do Egito, e alimentava os exércitos na Itália e no Mediterrâneo. O grão lhes “ganhou o pão” por milênios. Não à toa, os habitantes da ilha aprenderam a fazê-lo brilhar em cada preparação.

  Mais recentemente, numa viagem a Estocolmo, notei que, historicamente, a produção de comida tinha 120 dias para acontecer. Além da escuridão e o inverno inevitáveis, os nórdicos se preparavam para possíveis guerras e falta de suprimento. O resultado foi a cozinha feita de secos, fermentados e preparações em picles, soluções de um povo acostumado à escassez de alimentos. Hoje, isso é visto como original por quem nunca passou fome.

Se esses relatos desconexos não fazem sentido, me explico: todo prato de comida lhe sussurra uma história, e o importante é saber ouvi-la. Sejam guerras, proibições religiosas, mudanças climáticas, migrações, crises econômicas ou ainda a fome, a história lhe descerá garganta abaixo.

Na relação entre comida e identidade, do que é feita a brasileira? A abertura das importações trouxe um apreço imenso pelo que vem de fora e um esquecimento da riqueza sob nossos pés. Alimentos nativos foram abandonados, preparações tradicionais estão morrendo. Quando se fala em gastronomia regional, uma meia dúzia de pratos nos vêm à cabeça, mas nos cardápios mais badalados se vê é ceviche, comida nórdica ou kimchi. Que moeda gastronômica daremos em troca aos turistas que nos visitam?

Devemos ser cosmopolitas desde que o olhar para fora não nos raspe a impressão digital. E para a pegada ser firme, quanto mais local, melhor. Não sabe que frutos são nativos? Que preparações pode chamar de suas? O melhor caminho é perguntar pra sua mãe, pro seu tio, seu avô e, é claro, ler muito. Nossos regionalismos nos fazem únicos. Por isso, viajamos.

Na Suécia ou aqui, a gastronomia é o ingrediente cultural mais subestimado que existe. Use e se lambuze.



Cris Beltrão
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