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O cheiro do centro e a arte de roubar chocolate nas Americanas

Por: Fran Micheli

25/04/2018

Minha memória afetiva é toda vinculada à comida. Se eu me lembro de alguém importante, logo ela deve estar mastigando algo no meu filme mental. Quando vem uma situação memorável na cabeça, logo sei o que é que comemos na ocasião.

Uma dessas boas lembranças com gosto e cheiro é o que me faz ter a minha avó comigo ainda. Ela era uma avó clichê: gordinha, cabelo branco bem tratado, ficava na cozinha o dia inteiro, me enchia de doces e me estragou, como qualquer mãe diria. Era o papel dela, acho.

O programa favorito quando eu era criança na década de 1980 era ir “à cidade”. O Centro. Ribeirão ainda não cuspia Rand Rovers pra todo lado, não existiam prédios apertados e supervalorizados na zona sul, nem um shopping com um estacionamento maior que meu bairro inteiro. Ribeirão não parecia uma festa de debutante.

Era bom.

A vó me levava junto sempre e as paradas eram as mesmas. Comíamos um pastel de carne no Salgadinhos Alzira que tinha uma tradição conceitual inexplicável: todos os fregueses jogavam os guardanapos usados no chão. O corredor estreito era margeado por dois balcões compridos e nós, sentadas em banquinhos altos e sem encosto, ficávamos com os pés em meio aos papeizinhos brancos sujos, farelos de empada, caroços de azeitonas e restos de coxinhas. Ela me ensinou a continuar jogando as coisas no chão, já que nunca foi muito de questionar os porquês da vida. E o Salgadinhos Alzira foi assim por muitos anos.

Depois dessa refeição balanceada, seguíamos para as Lojas Americanas. Os passos para se aproximar da loja eram uma experiência de vida. Um cheiro impiedoso tomava conta dos metros ao redor e, conforme íamos entrando, eu ficava cada vez mais hipnotizada. Havia uma lanchonete dentro da loja e o bacon fritando na chapa era como uma benção caindo sobre todos ali.

Entrávamos. Eu roubava um Sonho de Valsa toda vez. Que me condene quem nunca perpetuou essa cultura na relação criança versus Lojas Americanas do Centro. O não-hábito de questionar as coisas da vida também fazia com que minha vó nem estranhasse as coisas que não deveriam estar ali, no meu bolso. Era um ato de cumplicidade.

Ela comprava uma sacola de doces pra mim e então subíamos ao andar superior pra tomar um sundae de chocolate com uma cereja no topo. Na lanchonete de cima, tinha sorvetes da Kibon e essa era a minha meta de vida aos 8 anos.

Eu tomava aquele sorvete imenso, com cheiro de bacon no nariz, com um Sonho de Valsa no bolso e a avó mais avó que tinha no mundo ficava sentada ao meu lado esperando eu terminar. Com ela eu tinha a saborosa liberdade de um condenado à cadeira elétrica inocentado na última hora. Eu podia tudo no centro da cidade.

Quando penso em dar uma maneirada na alimentação, lembro dela. Se ainda estivesse aqui, ia me dar um safanão, mandar parar de frescura e um “vai tomar um Biotônico, menina, você tá muito magrela”. A balança poderia passar dos três dígitos, o discurso seria o mesmo.

Uma pena que o Centro da cidade esteja tão patético, sujo e com a cara do desrespeito administrativo. Hoje, ele só cheira à saudade mesmo.

A culpa deve ser do progresso. Ou do poder público que surrupia tudo da gente, mas nunca o sorrisinho cínico e infantil de ter roubado um Sonho de Valsa nas Americanas com sucesso.



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