Para o topo
Farofa Magazine
Farofa Magazine

Me tornei uma pessoa previsível fazendo café

Por: Bia Amorim

26/06/2018
Me tornei uma pessoa previsível fazendo café

Foto: Irene Coco via Unsplash

Acordo. As remelas ainda grudadas e as pálpebras abrindo, penso no café. É esperado das manhãs que elas tenham café. Levanto da cama depois de espreguiçar de forma demorada. Mentalmente coloco em linha quais as variedades que tenho no armário, Bourbon, Catuaí amarelo e vermelho. Estrala alguma parte do corpo e sigo pro banheiro. Blend ou tradicional? Não escovo os dentes antes que é para não estragar o paladar. Bochecho bem grande de água e um gargarejo para um leve divertimento matinal com barulhos. Roupa no corpo, cara lavada, estou pronta para o “brew coffee” matinal.

Chaleira, aquela mesma toda queimada e que não apita mais. Metade vermelho, outra metade o bom e velho alumínio. Não troco por nada. Nela, só água. Não gosto de misturar. De olho mesmo coloco um tanto de água e penso sempre “escaldar, esquentar e mais x para cada grama do pó”. Conto meio que em voz alta as pessoas da casa e se tomam café. É cedo demais para aqueles que não são do ofício.

De segunda a segunda o esquema é pegar a jarra, porta-filtro, filtro. Depois a balança, pote hermético com os grãos e o moedor. Crac, crac, vrum. Aquele barulhão súbito quando liga o equipamento com os grãos quebrando dentro. Já fui mais hipster com o moedor de madeira e sei comprovadamente com minha própria experiência que ele é melhor. MAS tomar café 1 a duas vezes por dia e ainda fazer para outras pessoas são muitas e muitas horas no mês com o bracinho em movimento na manivela. Vamos ser práticos que ainda é de manhã!

Acompanho a água que ferve rápido na panelinha velha. Desligo. Não é paranoia ou excesso, mas escaldar o filtro de papel é uma das coisas mais favoráveis que você pode fazer para seu líquido precioso não ter sabor de celulose. Água quente nele e enquanto isso esquenta a jarrinha gelada depois de uma noite no escorredor. As xícaras também. Eu não passo a água tão fervendo no café, fico com dó, coisa minha.

Tem dias que não é com o resultado do café na xícara que eu me alegro. É a primeira caída de água nos grãos moídos que formam uma coloração marrom com várias tonalidades. Um bolo se forma e microbolhas fazem por apenas alguns segundos movimentos que mudam todo o quadro. O aroma sobe e a casa inteira fica avisada que vai ter café, sim!

Espero alguns segundos e olho na balança. É eu sei, excesso de zelo talvez, paixões são assim para tudo. Aquele cuidado com cada mililitro versus grama. Bateu a meta de água no filtro é só esperar. Conto cada segundo. Já tô de olho na cor e o gotejar a tempos. Mas nunca sei ao certo se acertei a moagem, se a temperatura estava correta, se guardei certinho os grãos, se a balança estava precisa. Sono demais para algumas coisas, fica inviável ser barista pela manhã.

Aquela leve balançada para misturar a coisa toda. Ondas de café. Ondas do mercado. Ondas no vidro todo cheio de marquinhas para cada tipo de pessoa. O vidro temperado, o café todo coado. Tons de marrom. Não preto escuro. Âmbar. Caramelo. Pantone 4C 462. A xícara, a que tiver limpa, quentinha e está pronta. Aqueles desenhos, fotos do sobrinho, textos de autoajuda ou apenas o nome de um lugar que você foi nas férias estavam na volta da caneca toda. Tanto faz. Importa o conteúdo, sempre!

Por fim, sento em algum lugar ou apenas desbloqueio o meu celular. O Instagram, TV moderna dos tempos atuais é minha cia para este momento sagrado da rotina. É assim que eu desperto e acordo no mundo. Mais atenta depois de alguns goles, puxo a embalagens de grãos e releio sobre o produto. Cidade, região, peneira, variedade, altitude, processamento, fazenda e produtor. Tudo ali. Em detalhes, a vida do café mais exposta que minha conta no Facebook. Agradeço ao produtor, já que tenho até o nome dele. Aquele “obrigada” com carinho pois tornou o começo do dia melhor. Escovo os dentes, pego as minhas coisas e vou trabalhar, que nos dias de hoje não temos tanto tempo para romantismos. O café me desperta até da paixão por ele mesmo.



Bia Amorim
Bia Amorim
Mais artigos deste autor

Comente aqui:
Voltar para a página anterior
download edição atual
FAROFA #02
artigos

Bia Amorim

Bia Amorim

Eu não tomo cerveja no copo certo

Bia Amorim

Bia Amorim

Brigando com nossos gostos cervejeiros

Bia Amorim

Bia Amorim

Dias de RIS

Fran Micheli

Fran Micheli

Sobre salsichas e pessoas em conserva

Aline Silva

Aline Silva

5 Reflexões para o seu café, bar ou restaurante

Bia Amorim

Bia Amorim

Aquele arroz doce doido de bom, OMADDM

saiba antes, saiba mais: