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Aquele arroz doce doido de bom, OMADDM

Por: Bia Amorim

02/09/2018
Aquele arroz doce doido de bom, OMADDM

Minha primeira memória “profissional” de cozinha é quando eu tinha cerca de 8 anos de idade. Fiz uma aula de culinária na escola, no período da tarde. Aquelas aulas extras legais que algumas escolas se propõem a dar para filhos de pais ocupados. Estava aprendendo a forma técnica de como fazer um arroz doce. Tinha tempo, peso e controle para tudo. A cozinha me seduziu com seus limites.

Ao longo da vida, estamos sempre buscando a sobrevivência. Precisamos nos alimentar boa parte do tempo para ter energia e produzir e existir. Mas já chegamos ao ponto de não precisar sair para caçar. Não precisamos ir para a colheita. Não precisamos levar os pães assar em outro lugar. Não temos mais que fazer fogo com lenha e nem mesmo perdemos os alimentos como antigamente, pois a refrigeração transformou a alimentação assim como o fogo.

Temos que lavar louça e só.

Hoje em dia a gente consegue é comprar com um simples tilintar de dedos. Pela tela de um fino aparelho, conectado com o mundo todo, podemos pedir e sem sair do sofá receber qualquer coisa que esteja neste mundo. Elon Musk está tentando ajudar a trazer coisas de fora, mas ainda demora.

Tem alguns lances que são da memória, grudados em algum canto do cérebro nos deixam apegados a momentos que passaram e muitas vezes com pessoas que até já se foram. Alguns sabores a indústria alimentícia até consegue copiar. O sabor quase igual, a textura super parecida. A aparência uma real cópia real. Comemos e acessamos na memória o contexto e aquilo nos afaga.

Mas o fac-símile nem sempre é bom o suficiente. Falta dentro das embalagens lindas de plástico geradas em milhões, atender com a energia de algo feito em casa, por conhecidos, por vizinhos desconhecidos, por parentes e amados. O abraço, o aperto de mão, o contato.

Assim, descobri que um amigo da minha tia, padrinho do meu primo, esposo de uma colega de uma colega, artista quase vizinho, estava fazendo arroz doce. Foi um domingo qualquer, almoço na casa da tia. De sobremesa, um pacotinho de marmita com carimbo na tampa. Bem hipster sem querer ser. Sem querer sendo.

A tampa se levantou devagar e naquela simples embalagem metálica; o branco, cremoso e com pequenas bolotinhas cumpridas brilhou. A canela, toda terrosa ela, salpicada generosamente decorando e aromatizando tudo que tinha ali.

OMADDM do Cleido Vasconcelos

Na mesma hora, o aroma tomou conta e antes mesmo da primeira colherada eu já tinha acessado a caixinha com a lembrança dos meus 8 anos. Ao fechar os olhos para abocanhar a colher, estava na cozinha de madeira com pequenos utensílios e a professora explicando calmamente. É daquelas piscadas rápidas que nos levam e voltam. Que doido de bom.

Dias depois, com um tilintar de dedos, encomendei a minha marmitinha. Fui buscar e ganhei um abraço e uma bronca, pois parei na frente da garagem errada da casa da vizinha. Mais sorridente que uma criança, pedi desculpas e entrei logo no carro, era hora de passar o café e comer algo que me transportasse rapidamente para a infância, antes de encarar novamente aquela planilha de adulto.



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